[A época] [A vida] [A obra] [O impacto] [Para sala de aula] [Bibliografia]


Quem inventou o telescópio?


Existe uma controvérsia bastante grande sobre a construção do primeiro telescópio.

Embora haja algumas evidências de que os chineses já conhecessem as lentes a partir do século X e os árabes a partir do século XI, eles não chegaram, ao que se sabe, a desenvolver qualquer dispositivo semelhante ao telescópio.

Roger Bacon (1214-1294), em sua mais conhecida obra, Opus Maius, enfatiza a possibilidade de usar lentes para aumentar pequenos objetos. Porém não se pode dizer, com certeza, que o próprio Bacon tenha construído o seu telescópio e, ainda que o tivesse feito, provavelmente teria obtido um dispositivo de pouca eficácia devido à má qualidade óptica das lentes (esféricas) disponíveis na época.

O estudo de óptica no final da Idade Média mostra que as teorias ópticas até o século XIII não apresentavam qualquer idéia clara acerca do funcionamento das lentes ópticas.

A descoberta das lentes de óculos desempenhou um papel decisivo no futuro desenvolvimento da óptica devido a sua alta capacidade óptica. Esta descoberta ocorreu, no Ocidente, no final do século XIII, provavelmente entre 1280 e 1286, quando foi introduzido o uso de lentes convexas de pequena curvatura e foco longo para compensar a hipermetropia.

O verdadeiro inventor das lentes dos óculos não devia pertencer à classe das pessoas que escreviam acerca de suas descobertas, porque, apesar da investigação cuidadosa, não foi até hoje descoberto seu nome. Além disso, a palavra italiana lente di vetro (lentilhas de vidro ou lentilhas de cristal), usada para indicar estes pequenos discos de vidro, era um termo popular e se "alguém mencionasse lente sem qualificar o material de que elas eram feitas, correria o risco da confusão com o vegetal. A melhor prova de que a lente não foi inventada em um meio cultural é o modo como as pessoas cultas tratavam-na, uma vez que seu uso foi introduzido. As lentes eram consideradas indignas de qualquer atenção e foram ignoradas por mais de três séculos".

No final do século XVI, agora com lentes bem mais aperfeiçoadas, encontramos algumas descrições de instrumentos que parecem acenar ao telescópio.

Leonard Digges (? - 1571) afirmou ter inventado um dispositivo formado por uma combinação de lentes (uma côncava e outra convexa, montadas sobre armações sem tubo), que permitia que objetos distantes pudessem ser vistos como e estivessem perto. Segundo escreveu Thomas Digges, filho de Leonard, seu pai desenvolveu seu trabalho com vidros de perspectiva com a ajuda de alguns manuscritos de Roger Bacon que caíram em suas mãos.

Também o italiano Giovanni Battista della Porta (1535 - 1615), de Nápole, pleiteou uma invenção similar em 1589. Kepler, no seu longo comentário sobre o Sidereus Nuncius - onde Galileu apresentou o seu telescópio e suas primeiras observações telescópicas - refere-se ao trabalho de della Porta sobre a combinação de lentes como um precursor do telescópio galileano.

Recentes estudos, baseados em documentos encontrados no princípio deste século, demonstram que a invenção da primeira luneta se deu por volta de 1600, na Itália. E esta serviu de modelo para a construção em 1604, em Middleburg, de uma outra, porém elas permaneceram praticamente desconhecidas até que uma patente do telescópio foi requerida, no começo de outubro de 1608, por um polidor de lentes de Middleburg chamado Hans Lippersheim (? - 1619). Além de Lippersheim surgiram outros pretendentes rivais. Entre eles destacam-se Zacharias Jansen (em 1604) e Adrien Metius.

Galileo parece considerar que o primeiro inventor do telescópio foi um simples fabricante de óculos comuns (da Holanda). Certo é que em fins de 1608 notícias sobre a descoberta de um certo instrumento holandês, através do qual um objeto embora distante duas milhas do observador podia ser visto claramente como se estivesse perto, foram largamente difundidas.

Apesar disso, Galileo parece não ter tido notícias acerca do telescópio (ou não deu crédito a elas) até julho de 1609 quando, em visita a Veneza a fim de verificar as perspectivas de ter seu salário aumentado, ficou sabendo, por intermédio de amigos, da existência de tal instrumento. Esse episódio é narrado por Galileo no Sidereus Nuncius:


"Há cerca de dez meses chegou aos meus ouvidos uma notícia de que um certo belga tinha construído um pequeno telescópio por meio do qual objetos visíveis, embora muito distantes dos olhos do observador, eram vistos como se estivessem perto. Deste efeito, verdadeiramente notável, várias experiências foram relatadas, às quais algumas pessoas davam crédito enquanto outras se recusavam. Uns poucos dias mais tarde a notícia me foi confirmada em uma carta de um nobre francês de Paris, Jacques Badovere, que me motivou a dedicar-me à investigação do meio pelo qual eu podia chegar à invenção de um instrumento similar" (Sidereus, vol. III, p.60)


Diante destes rumores e das poucas possibilidades de conseguir o aumento de salário, cuja reinvidicação o levara até Veneza nesse mês de julho, e imaginando a importância que o telescópio teria para o governo veneziano nas atividades marítimas e terrestres, Galileo retorna a Pádua (3 / 8), onde então residia, para tentar construir um desses instrumentos, cuja invenção podia ser-lhe útil para melhorar sua situação financeira.

Segundo Galileo escreve no Il Saggioatore (1623), na primeira noite depois do seu retorno ele já havia resolvido o problema da construção do telescópio, tendo construído um no dia seguinte. Galileo envia notícias disso aos amigos de Veneza com os quais havia discutido o assunto no dia anterior. Seis dias mais tarde, Galileo encontra-se a caminho de Veneza com o instrumento mais perfeito, que foi exibido para os principais gentis-homens daquela República, por mais de um mês seguido.

"Há quase dois meses espalharam-se notícias aqui que na Holanda tinham presenteado o Conde Maurício (de Nassau) com um pequeno telescópio (occhiale) ... atrvés do qual um homem duas milhas distante podia ser visto claramente ... como me pareceu que ele devia estar baseado na ciência da perspectiva, comecei a pensar acerca da sua construção, que finalmente consegui, e tão pereitamente que um occhiale que fiz superou e muito a reputação daquele holandês. E tendo chegado informações a Veneza de que eu tinha feito um, fui chamado há 6 dias pela Sereníssima Senhoria para que o mostrasse a todo o Senado, para a infinita perplexidade de todos; e houve numerosos cavalheiros que, vindo todos eles para o porto, foram necessárias 2 horas e pouco antes que pudessem ser vistos sem o meu telescópio (mio occhiale). De fato, o efeito deste instrumento é representar um objeto que está, por exemplo, a cinqüenta milhas de distância, grande e próximo como se estivesse apenas a cinco."

Supõem-se que embora Galileo pudesse ter conversado com pessoas que viram o telescópio, poucas informações ele poderia ter obtido, além de alguns detalhes, como a forma do tubo e que era um instrumento de lentes, já que os proprietários dos telescópios, ao exibirem os seus produtos, proibiam os pleiteantes à compra de examinarem o instrumento, podendo apenas olhar através dele. Assim sendo, estes relatos pouco teriam auxiliado Galileo na construção do seu próprio instrumento, exceto é claro por impulsioná-lo a pensar no assunto.

O raciocínio necessário para se chegar ao telescópio não só não é suficientemente simples para ter sido feito por qualquer polidor de lentes que tivesse ouvido falar do telescópio, como também não é suficientemente simples para ter sido feito por tantos quantos estudaram óptica àquela época, exceto se entendermos por 'óptica' a 'óptica pós-kepleriana', isto porque, os estudos existentes no século XVI e começo do século XVII sobre a formação de imagens em lentes ou sistemas de lentes não ofereciam bases para a construção do telescópio, com exceção, talvez, do Ad Vitellionem Paralipomena, quibus Astonomiae par Optica Traditur, de Kepler (1604, Frankfurt), o qual Galileu, até outubro de 1610, não tinha conseguido ler. Em uma carta que Galileo endereçou a Giuliano de Medici, encontra-se o seguinte trecho:

"Peço a V.S.Ilma. o favor de mandar-me a óptica de Kepler, e o tratado sobre a Estrela Nova, porque nem em Veneza nem aqui eu os pude enontrar".

Galileo não construiu o seu instrumento a partir de uma teoria previamente estabelecida mas antes por pura experimentação óptica. A este respeito é sugestiva a declaração de Kepler no seu Dissertatio cum Nuntio Sidereo onde há duas razões do porquê, a despeito de seu conhecimento muito maior do que Galileu, a respeito de óptica, "deixou de tentar construir o aparelho": "Você, entretanto" (dirige-se a Galileo) "merece cumprimentos. Libertando-se de todos os receios, voltou-se diretamente para a experimentação visual".

Huygens no seu Dioptrica assinala que "seria necessário inteligência sobre-humana para inventar o telescópio com base na Física e na Geometria então conhecidas. Afinal de contas, ainda não entendemos o funcionamento dos telescópios".

Para saber sobre as observações que Galileo realizou com seu telescópio, publicadas na obra Sidereus Nuncius, volte para a página anterior.



Volta para o Sidereus