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O impacto da obra de Galileu

Julgamento de Galileu - 59 KB


Quando Copérnico propôs seu sistema heliocêntrico, no século XVI, a idéia de que a Terra se movia era inaceitável, sob o ponto de vista físico. Naquela época, o sistema de Copérnico podia ser aceito sob o ponto de vista puramente astronômico, mas estava em conflito com a física conhecida. A rotação da Terra, por exemplo, deveria produzir a expulsão de todos os corpos de sua superfície. A teoria heliocêntrica exigia uma nova física, para explicar o motivo pelo qual esses fenômenos não eram observados.

O próprio Copérnico não foi capaz de desenvolver essa nova mecânica. Apenas no século XVII, essa base teórica para a astronomia foi sendo desenvolvida. Considera-se normalmente que Galileu Galilei foi o principal responsável pela criação dessa nova física. É claro que não se pode negar que Galileu tenha contribuído para a criação da nova física e para a aceitação do sistema de Copérnico, mas as suas concepções são ainda intermediárias entre o pensamento antigo (de Aristóteles) e a mecânica clássica (de Newton). Na verdade, Galileu não conseguiu nem responder a todas as objeções clássicas contra o movimento da Terra, nem apresentar evidências adequadas de que a Terra se move. As principais dificuldades de Galileo estão associadas a movimentos de rotação.

No seu livro Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo, Galileu trata da explicação do motivo pelo qual os corpos não são expelidos da Terra pela sua rotação e da sua teoria das marés. Galileu conhecia muito bem a inércia e sabe que, por causa dela, os corpos terrestres possuem a tendência a escapar do movimento circular. O motivo da tendência dos corpos em rotação de se afastar do centro não é porque exista um tendência a se moverem radialmente para fora, mas por sua tendência a se moverem tangencialmente.

Por que, então, os corpos sobre a Terra não são lançados para fora? Por causa da gravidade. Qualitativamente, a resposta de Galileu é igual à moderna. Mas sob o ponto de vista quantitativo, sua visão é totalmente inadequada, pois ele acreditava que, por menor que fosse a gravidade, ela seria suficiente para reter os corpos na superfície da Terra. Galileu não conseguiu compreender as propriedades do movimento de rotação uniforme. Como havia pelo menos um argumento contra a rotação da Terra ao qual Galileu não deu uma resposta satisfatória, não se pode dizer que ele tenha estabelecido uma base física coerente, compatível com a astronomia de Copérnico. Assim, seus contemporâneos poderiam, racionalmente, negar-se a aceitar o movimento da Terra, utilizando o argumento de extrusão por rotação.

Ao longo de grande parte do Diálogo, o objetivo de Galileu é responder às objeções contra o movimento da Terra. De um modo geral, os argumentos que ele apresenta procuram mostrar que, apesar do movimento da Terra, não devem surgir os efeitos que eram previstos pela antiga mecânica e que tudo se passa como se a Terra estivesse parada. O ponto culminante dessa argumentação defensiva de Galileu é a sua famosa apresentação do chamado "princípio da relatividade mecânica" ou "princípio da relatividade de Galileu". Através desse princípio, Galileu defende que não se pode perceber efeitos do movimento de um sistema (se o movimento for retilíneo e uniforme) através de experimentos feitos dentro do próprio sistema. Assim, o movimento da Terra não produz feitos observáveis nos fenômenos que ocorrem na própria Terra.

Além disso, como já se sabia, Galileu enfatiza que as aparências celestes podem ser explicadas tanto pelo sistema de Copérnico como pelo de Ptolomeu, embora se possa dar preferência ao de Copérnico por ser mais simples. Mas Galileu quer mostrar é que o sistema de Copérnico é melhor e é o único verdadeiro. Por isso, um ponto fundamental (e final) do Diálogo é a discussão de um fenômeno que lhe parece ser decisivo: as marés.

Para Galileu, as marés são um fenômeno decorrente dos movimentos da Terra e que seria impossível explicar se a Terra estivesse em repouso. Galileu critica várias explicações anteriores das marés - entre as quais, a de um sacerdote jesuíta, Marcantonio de Dominis, que supunha que a Lua atraía a água dos mares. Esta suposição era muito antiga, proveniente de observações de correlação entre as fases da Lua e as marés. A idéia de uma força de atração surgiu muitas vezes antes do trabalho de Newton, mas estava geralmente associada a idéias astrológicas. Talvez por isso tal concepção tenha parecido inadequada a Galileu. Quase ao final de seu livro, Galileu chega a criticar Kepler, admirando-se que ele, de engenho livre e agudo, e que tinha em mãos os movimentos atribuídos à Terra, tenha dado ouvidos e concordado com o predomínio da Lua sobre a água, e a propriedade ocultas, e infantilidades semelhantes.



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